Crtica, A Constituinte perante a histria, pelo sr. HOMEM DE MELO. 
Sombras e Luz, do sr. B. PINHEIRO, 1863

A Constituinte perante a histria,
pelo sr. Homem de Mello.  Sombras e Luz, do sr. B. Pinheiro.

Texto-Fonte:

Crtica
Literria de
Machado de Assis,

Rio de
Janeiro: W. M. Jackson, 1938.

Publicado
originalmente no Dirio do Rio de Janeiro, 24/08/ 1863.

Encetando hoje estas conversas, no posso
dissimular o sentimento de tristeza que me domina.

Olho em torno de mim e no vejo mais na arena
aquela pliade ardente que vinha todas as semanas, ao rs do cho, entrar nas
justas literrias. Uns, levou-os a morte, outros prendem-se a cuidados mais
srios, alguns enfim foram-se para as justas polticas, e o folhetim, o
garrido, o ameno, o vioso folhetim perdeu os seus amigos e os seus leitores.

E contudo sempre me pareceu que o folhetim era uma
funo obrigatria e exclusiva, para a qual nunca devia soar a hora da morte ou
a hora da poltica. Era um erro.

Tout arrive, dizia Taleirand, e foi preciso que eu visse o fato para acreditar
que tambm ao folhetim devia chegar a hora da poltica e a hora da morte.

Nos bons tempos do folhetim era digna de ver-se a
luta.

O estmulo entrava por muito no trabalho de cada
um, do que resultava trabalharem todos com maior proveito e gloria. Hoje a
melhor vontade h de nulificar-se no meio do caminho.  uma voz no deserto, sem
eco nem competidores.

E  por isso que eu ficarei mui embaraado se os
leitores me perguntarem a que venho, eu, que nem tenho as razes de talento do
mais nfimo de outrora.

No sei,  a minha resposta; e no creio que melhor
se possa dar em grande nmero de circunstncias da vida.

Venho talvez para nada.

Sobre a extemporaneidade desta apario h ainda a
esterilidade dos tempos, do que se poderia tirar uma concluso:  que se os
homens no abandonassem o folhetim, o folhetim seria abandonado pelos
acontecimentos.

Para conservar-se a gente segregada da repartio
poltica, diga-me o leitor, onde ir buscar matria?

Na imaginao, responder, o que eu acharia bem
respondido, se a imaginao fosse nestas coisas matria-prima, e no um simples
condimento especial.

O que  certo  que nas notas que tomei para
organizar estas pginas apenas encontro trs assuntos. E pelo tom em que eles
vo escritos posso acertadamente dizer que vo mais cheios de queixas que de
caixas, como das frotas de acar da Bahia anunciava o padre Antnio
Vieira.

Mas  preciso dar de mo s queixas para tratar das
coisas.

Resume-se a minha bagagem da semana em dois livros
e uma estria.

O primeiro dos livros  uma reivindicao histrica
escrita pelo sr. Homem de Melo, um dos mais notveis talentos nacionais, no
qual o verdor dos anos corre de par com a erudio e a proficincia literria.
O ttulo do livro   A Constituinte perante a histria. Trata o sr.
Homem de Melo de provar que o perodo da Constituinte ainda no foi justamente
apreciado pelos contemporneos.

Um desejo constante de acertar, tanto na ordem das
idias, como na ordem dos fatos, eis o que se nota nos escritos do sr. Homem de
Melo.  o que eu tive ainda ocasio de notar no pequeno mas excelente artigo
que ele publicou na Biblioteca Brasileira, a respeito do golpe de Estado
de 1823. O pensamento do sr. Homem de Melo  altamente patritico. Ele quer
liquidar imparcialmente o passado para tornar mais fcil o inventrio das
nossas coisas aos historiadores do futuro.  difcil a tarefa, nem o sr. Homem
de Melo dissimula: julgar a frio os homens de quem parece ouvir-se ainda os
passos no caminho do nosso passado poltico, violentar as nossas afeies,
modificar as nossas antipatias,  uma obra de conscincia e de coragem, digna e
honrosa,  certo, mas nem por isso fcil de empreender.

Compenetrado desta verdade, o sr. Homem de Melo
procura e consegue evitar o perigo. Para esse resultado, em que toma parte a
conscincia do escritor, tenho para mim que contribui no seu tanto a ndole do
homem.

 o sr. Homem de Melo de natural frio e meditativo.
Parece que tem medo  precipitao e  involuntariedade, medo que sempre foi
uma das primeiras virtudes do historiador.

Para estudiosos tais so necessrios os louvores,
no somente como prmio e animao a esses, mas ainda como estmulo a outros.
Que o sr. Homem de Melo prossiga nas suas investigaes histrico-polticas e
que outros o imitem em trabalhos to srios,  o mais legtimo desejo de quem
ama a vitria do pensamento e da verdade.

Falei no que o historiador pode tirar da histria;
passarei a falar no que a histria fornece ao romancista.

Querem romances? perguntava Guizot. Por que no
encaram de perto a histria?

* * *

Eis o que o sr. B. Pinheiro, romancista portugus,
compreendeu desde que entrou no comrcio das letras. Sombras e luz,
romance histrico, que tenho diante dos olhos,  o terceiro livro deste gnero
que o sr. B. Pinheiro d  publicidade. Arzila e a Silha do povo
foram os dois primeiros. Interrogar a vida pblica e a vida ntima dos tempos
que foram, eis a ocupao predileta e exclusiva do autor.

Ele divide o tempo entre o estudo da histria e o
estudo dos modelos.

Para descansar da consulta das crnicas vai ler
Herculano e Walter Scot, seus autores favoritos; em se fatigando destes volta
de novo aos in-flios dos velhos tempos.

Sombras e Luz significam as glrias e os erros do reinado de Dom Manuel. Tais so
as promessas que o autor nos faz no prefcio, e tal  o pensamento manifesto
que domina o livro.  este livro isento de defeitos? Francamente no, e o
principal defeito no  decerto o pouco desenvolvimento que o autor deu s
bases indicadas no prefcio.

Declarando que o seu livro  um simples ensaio de
romance histrico, como os precedentes, devia contudo o autor ter em vista uma
explanao mais cabal do assunto, para o que no lhe faltava nem talento nem
elemento de observao.

Disto resulta que os caracteres esto desenhados
apressadamente, sem aquela demorada observao que o autor nos revela em muitas
pginas. Tendo de ligar a ao imaginada  tela dos acontecimentos, o autor
cuidou menos dos sentimentos morais dos seus personagens, para tratar
miudamente das situaes e dos fatos.

Em apoio desta observao citarei a visita que
Eullia e Luiz, de volta de Hamburgo, fazem a Duarte Pacheco.  evidente que
esta visita tem por nico fim apresentar em cena o herdeiro da ndia; mas
reparou o autor na inverossimilhana desta visita de dois jovens, raptados em
criana para terra estrangeira, e voltando ao pas natal no havia muitas
horas? Eles, que no exlio se ocultavam para falar a lngua ptria, e que,
pondo o p em Lisboa, j vinham influenciados por uma simpatia mais terna,
podiam acaso sentir aquela admirao e entusiasmo por Duarte Pacheco?

Mas deixemos este pormenor e, entremos em uma
apreciao mais larga.  mngua de espao farei apenas uma observao, mas
capital, no meu entender.

Eullia e Luiz, embora filhos de pais diversos,
nunca tiveram conhecimento desse fato e antes se acreditavam irmos. Como
irmos foram educados e por irmos se tiveram em terra estranha. Que melhores
elementos tinha o autor para enobrecer e fazer interessar os seus personagens?
A afeio fraternal, aumentada na orfandade da ptria e da famlia, seria neles
um vnculo nobre e apertado, legtimo e natural. No creio que de outro modo
pudessem interessar mais. Nele a proteo, nela o desvelo, em ambos a dedicao
mtua, eis a uma tela que dava lugar aos quadros mais comoventes e
interessantes.

Em vez disso, o autor, apenas voltam os dois irmos
a Portugal, apresenta-os como sentindo um afeto menos desinteressado que o de
irmos.  ao princpio um sintoma, mais tarde  um fato positivo que se
manifesta, no j por uma cena de enleio, mas por uma cena de paixo, com todos
os pormenores, sem faltar o beijo longo e absorvente.

Ora, quaisquer que sejam as razes que se
apresentem em contrrio, eu tenho esse amor por incestuoso. No toma a educao
grande parte nestas coisas? A f em que estavam ambos do vnculo que os unia,
no era um impedimento moral, no digo j  manifestao, mas ao nascimento de
semelhante amor?

Em duas almas bem formadas, no bastaria isso para
repelir tal sentimento?

 verdade que Luiz, desde o princpio, manifesta a
desconfiana de que Eullia no  sua irm; mas essa desconfiana no resulta
de fato algum,  puramente uma desconfiana do corao, na qual sou forado a
ver menos involuntariedade do que parece haver.

Acontece justamente aquilo que eu no quisera ver
em uma obra, por muitos ttulos recomendvel, como as Sombras e Luz.

Este amor  a glorificao dos instintos; os
sentimentos morais no intervm nele por modo nenhum.

O autor das Sombras e Luz, quero
acredit-lo, h de convir comigo, que esta glorificao dos instintos, a
despeito da vitria que lhe d o favor pblico, nada tem com a arte elevada e
delicada.  inteiramente uma aberrao, que, como tal, no merece os cuidados
do poeta e as tintas da poesia.

Fao est observao com plena liberdade, podendo,
em compensao, mencionar o muito que h para louvar nas Sombras e Luz.
Abundam nesse romance as situaes pitorescas, o colorido da descrio; o
estilo  correto, puro e brilhante; o dilogo vivo e natural.

O que sobretudo recomenda o livro e o autor  a
convico com que este se enuncia, tanto no entusiasmo pelas boas idias e os
grandes fatos, como na repulso dos sucessos odiosos e dos princpios errneos.
 este o meio seguro de interessar o livro e arrastar o leitor.

Falo assim por experincia. Foi-me preciso ler e
reler o captulo X e a nota correspondente, para dar o justo valor  iluso em
que o autor est acerca dessa formao de um tribunal comum a todos os povos e
essa universalidade de dedicaes  causa da verdade.

Entre os que acreditam isso impossvel e os que,
como o sr. B. Pinheiro, esto convencidos da sua praticabilidade, h um meio
termo que  a minha opinio.

Todos devemos crer no progresso e na vitria da
justia; mas o que presenciamos atualmente no alimenta a esperana de ver a
sociedade universal depender, como diz o autor, da vontade de um governo, do
governo ingls, por exemplo.

Esse parlamento comum a todos os povos seria uma
simples transformao da instituio diplomtica. Haveria as mesmas cabalas, o
mesmo sucesso de fora numrica, a mesma violncia das leis do justo e do
honesto. Que o autor manifestasse a esperana de ver o mundo, aps o trabalho
incessante dos filsofos e dos pensadores, chegar a um estado de poder
aproximar-se da realizao de um tal sonho,  o que assentaria bem na sua
imaginao de poeta; mas daqui at l quantas geraes no voltaro ao p, e
quantas vezes no h de a justia cobrir o rosto de vergonha?

Nesta crtica  convico ntima do autor  ainda
um elogio que lhe fao rendendo preito  sinceridade do entusiasmo de que ele
se toma pelas idias humanitrias e grandiosas.

Em resumo, Sombras e Luz, salvo os reparos
que ligeiramente fiz, merece a ateno dos escritores;  mais uma prova que o
sr. B. Pinheiro nos d de que toma a peito aperfeioar-se no gnero que
encetou. Estou certo de que com o talento e a observao que possui
desenvolver, mais e mais, os j to desenvolvidos elementos que se encontram
nas Sombras e Luz.

* * *

Resta-me falar da estria o sr. Csar de Lacerda,
ator portugus, que estreou no Teatro Lrico, no papel de Carlos do Cinismo,
ceticismo e crena.

A estria do artista, o objeto do espetculo (era
uma obra de beneficncia), a variedade do programa, o concurso de artistas como
Arthur Napoleo e Rafael Croner, sendo que este fazia-se ouvir pela ltima vez,
todos esses motivos deram lugar a uma enchente de espectadores.

Minhas impresses acerca do sr. Csar de Lacerda
foram das melhores.

Dotado de uma agradvel presena, sua entrada em
cena foi simpaticamente recebida.

Pertence o sr. Csar de Lacerda a uma boa escola. O
gesto natural, sbrio, elegante, a fisionomia insinuante e mbil; a dico
correta; a gravidade, a naturalidade, eis o que faz ver no sr. Csar de Lacerda
um minucioso e aproveitado estudo dos princpios e recursos da arte.

Fazia um papel em que uma aptido inferior teria
roado pela exagerao, e soube, sem empalidec-lo nem exager-lo, dar-lhe esse
tom natural e prprio que os sentidos delicados gostam de ver em tais criaes.

A maneira distinta com que representou fez
dissimular o timbre da sua voz, de algum modo desagradvel, cujo efeito as
dimenses do teatro de maneira alguma podiam atenuar.

Os aplausos que recebeu no fim da pea, mereceu-os;
espero agora o seu aparecimento em um novo papel, para confirmar as impresses
anteriores, ou observar o que, por ventura, me sugerir a nova estria.

Como disse acima, era a noite em que o sr. Rafael
Croner se despedia de ns. Tocou umas variaes no saxofone; foi como sempre. A
platia deu-lhe nos ltimos aplausos os ltimos adeuses, como eu lhos dou
nestas ltimas linhas, lamentando a ausncia de um artista que, por seu talento
e proficincia, onde pisa, conquista admiradores.
